Vol. 8, No 17 (2011)

Depois da “virada linguística” na Filosofia, hoje estamos na “virada retórica”, que amplia e aprofunda a anterior. De fato, os procedimentos retóricos estavam presentes na “virada linguística”, mas não se ousava dizer seu nome. Este número temático apresenta trabalhos de membros do Grupo de Pesquisa Retórica e Argumentação na Pedagogia (USP-FFCL Ribeirão Preto, CNPq), liderado por Marcus Vinicius da Cunha, e do qual sou colider, bem como de outros acadêmicos que ainda não pertencem ao grupo, nomeadamente Campos, Dutra, Grabovschi, Lembruger, Rivelli e Oliveira.

O artigo de Campos e Grabovschi, Argumentação e design: Cognição, afetividade e moralidade em comunidades universitárias de aprendizagem, mostra a efetividade dos fóruns de discussão no ensino superior tanto para analisar dos procedimentos argumentativos em rede, ao expor suas as razões, como seus condicionantes afetivos e morais. Os autores concluem que a co-construção argumentativa não ocorre per se, sendo necessária a intervenção do professor para que ocorra com sucesso, considerando as condicionantes afetivas desse tipo de atividade conversacional.

Dutra, em O poder cognitivo da metáfora, recorda a equiparação das noções de metáfora e modelo proposta por Max Black, em 1958, dizendo que este autor não tirou consequências epistemológicas dessa identificação. Dutra tira tais consequência ao mostrar que a metáfora não é valiosa apenas para a comunicação, uma vez que ela tem grande poder cognitivo, uma vez que é o ponto de partida de algum aperfeiçoamento conceitual, que permite instituir “um discurso exato, que emprega um vocabulário técnico e —pelo menos pragmática e provisoriamente— literal”. O exame do caráter persuasivo da metáfora nos convida e nos impulsiona para novas investigações, o que, do ponto de vista pragmático, implica considerar a metáfora como indutora de pesquisa, com maior força do que modelos e por isso decorra de seu maior poder persuasivo.

O exame dos discursos de John Dewey e Aristóteles acerca do homem e sua formação é o tema do artigo de Andrade e Cunha, a partir de Perelman, Toulmin e Billig, autores que retomaram a retórica e argumentação no século XX. Andrade e Cunha mostram que algumas noções deweyanas são emprestadas a Aristóteles, particularmente a de contingência, ponto de partida da filosofia de Dewey. Em que o humano caracteriza-se por ser condicionado pelo vital, em que o hábito é uma “segunda natureza”, tal como Aristóteles. Os autores mostram quais os esquemas argumentativos são empregados tanto por Aristóteles quanto por Dewey, nos fornecendo meios para melhor apreendermos as suas filosofias. Por fim, recordam que embora haja semelhanças importantes entre os filósofos que examinam, parece que Dewey evitou o inatismo que, segundo ele, condiciona o aristolelismo e sobre o qual Aristóteles teria sustentado sua filosofia. Se esta for a interpretação correta dos argumentos de Dewey, então ficará explicado porque ele evita a identificação de suas fontes, o que requer novas pesquisas.

Lembruger e Rivelli (Nova retórica e ensino de Ciências: uma interseção nas analogias) examinam o ensino de Ciências em sua interseção com a Nova Retórica, proposta por Perelman. Eles analisam os usos de analogias e metáforas nos livros didáticos de Ciências, sustentando ser falsa a sinonímia entre analogia e comparação, pois a segunda é um argumento quase-lógico, enquanto a primeira é “uma ligação que fundamenta a estrutura do real”. Apoiam-se em uma distinção em que a metáfora designa algo fora do lugar, enquanto a analogia expressa o lugar, a estrutura do real. Esta e outras distinções podem ser contrastadas com a posição de Dutra, que reconhece o poder cognitivo da metáfora. Um problema a ser trabalhado para compreender os esquemas argumentativos e retóricos utilizados no ensino das disciplinas escolares. 

Dewey publicou um ensaio pouco conhecido em nosso país: The Influence of darwinism on Philosophy (1909). Cunha e Carvalho (Discursos e auditórios: análise retórica dos argumentos de Dewey e Aristóteles acerca do homem e do desenvolvimento humano) analisaram aquele ensaio utilizando os esquemas retóricos como instrumentos. A hipótese dos autores era que o ensaio dirige-se a um auditório particular, para o qual não era necessário explorar exaustivamente as suas premissas, daí seu caráter entimemático. Para Dewey, ao que parece, não seria preciso sustentar o pragmatismo, pois seu auditório já o admitira, donde não seria preciso propor uma mudança na Filosofia, sendo suficiente expressar seu otimismo. Onze anos após o ensaio, Dewey publicou o seu Reconstrução da Filosofia (1920), quando se “vê instado a propor a transformação” da Filosofia, pois o pragmatismo não se tornara dominante. A análise retórica que permitiu melhor compreensão dos momentos do pensamento de Dewey e pode ser eficaz para qualquer outra filosofia, sem que o analista seja obrigado a recorrer a alguma metafísica, que proponho no artigo seguinte.

“Análise retórica e dialética de discursos acerca da educação” mostra alguns procedimentos que permitem apreender os argumentos e afetos em discursos a respeito das práticas educativas. O tema é o trabalho docente, um dos resumidamente apresentados no artigo, mobiliza diversos atores sociais, que se utilizam da técnica dissociação de noções para dizer o que é realmente aquele trabalho. Concluo dizendo que desenvolver a habilidade de identificação e uso das técnicas argumentativas é uma condição para apreender os temas postos nos debates, o que poderia ser o eixo organizador dos cursos de formação de professores. 

“A função argumentativa da Física no discurso filosófico de John Dewey”, de Costa-Lopes e Cunha, expõe o papel argumentativo da ciência Física em The Guest of Certainty” de Dewey, no qual o filósofo norte-americano censura o dualismo teoria e prática, assim como a noção de “certeza absoluta” predominante na Filosofia. Dewey toma ciência Física como modelo para sustentar que aquela dicotomia e a certeza absoluta são inadequadas, afirmando verdades probabilísticas, que caracteriza a sua filosofia.

Em “Contribuições da retórica para pensar a ação pedagógica”, Oliveira mostra que a chamada crise da modernidade não é, de fato, a da racionalidade, mas de um de seus modelos, o que se sustenta nas certezas provenientes da demonstração e do cálculo. Afirma, então, a racionalidade retórica, que no âmbito da educação põe em questão a identidade entre aluno/escola e homem/sociedade, implicando o reconhecimento de a escola não ter o monopólio da formação moral do estudante, logo não pode ser a protagonista das mudanças sociais. A negociação das distâncias entre os atores sociais, tarefa que se dá no âmbito retórico, caso eles queiram, põe como tarefa das escolas formar estudantes capazes de problematizar saberes, valores, crenças, normas, tradições, o que é apresentado como uma condição para as transformações sociais.

Dialética e retórica no discurso de Betti Katzenstein, de Borsato e Cunha, analisa artigos de Katnstein no Caderno Feminino do jornal Folha da Manhã (1947 a 1948), considerando-a um orador autorizado a falar acerca de tema da Psicologia e da Educação. A coluna opera por meio de um diálogo ficcional em que a autora conhece as respostas para as dúvidas apresentadas por Dona Anastácia, que encarna o “senso comum”, o que é um meio para difundir as concepções sustentadas pela autora. Os autores do artigo sustentam que as técnicas utilizadas por Katzenstein não eram comuns à época, que permitiu difundir suas valiosas contribuições para a Psicologia da Educação. Em particular por colaborar para a compreensão dos condicionantes psicológicos, biológicos e sociais das práticas educativas. O artigo é um exemplo da eficácia da análise retórica nos estudos históricos, sem se apoiar em “grandes narrativas”, mas na exposição do lugar social dos atores e dos meios persuasivos que utilizam em situação.

Informo, por fim, que o próximo número da revista está aberto a contribuições de artigos até 30 de abril do próximo ano. Convocamos os colegas pesquisadores a contribuir conosco para o debate das questões atuais do campo da educação.  

 

Tarso Mazzotti

Sumário

Artigos

Argumentação e design: Cognição, afetividade e moralidade em comunidades universitárias de aprendizagem Resumo PDF
Milton N. Campos, Cristina Grabovschi
O Poder Cognitivo da Metáfora Resumo PDF
Luiz Henrique de Araújo Dutra
Discursos e auditórios: análise retórica dos argumentos de Dewey e Aristóteles acerca do homem e do desenvolvimento humano Resumo PDF
Erika Natacha de Fernandes Andrade, Marcus Vinicius da Cunha
Nova retórica e ensino de Ciências: uma interseção nas analogias Resumo PDF
Márcio Silveira Lemgruber Silveira Lemgruber, Helena Rivelli
Um orador e seu auditório: análise retórica do discurso de John Dewey sobre o darwinismo Resumo PDF
Marcus Vinicius da Cunha, Daniele Cristine de Carvalho
Análise Retórica e dialética de discursos acerca da educa-ção Resumo PDF
Tarso Mazzotti
A função argumentativa da Física no discurso filosófico de John Dewey Resumo PDF
Viviane da Costa-Lopes, Marcus Vinicius da Cunha
Contribuições da retórica para pensar a ação pedagógica Resumo PDF
Renato José de Oliveira
Dialética e retórica no discurso de Betti Katzenstein Resumo PDF
Cláudia Roberta Borsato, Marcus Vinicius da Cunha


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